Surf e os Esportes de Aventura

“Todos nós viemos do mar, mas nem todos nós somos do mar. Aqueles de nós  que são os filhos das marés, devem retornar a elas, muitas e muitas vezes.”( Filme: Tudo por um Sonho – CHASING MAVERICKS)

 

A busca crescente pelos esportes de aventura apresentam um sintoma social, de algo desejante do indivíduo contemporâneo de uma busca de sentido para um vazio existencial.

Nas palavras de Lipovetsky (2007), atualmente os atletas, as competições esportivas, os recordes quantificados são onipresentes nas mídias; cada vez mais, os esportes de risco, os esportes de aventura, as façanhas solitárias, o “extremo” estão na primeira página da informação: através do esporte visualizamos uma sociedade fascinada pelos desafios, a paixão de vencer, a otimização das capacidades do corpo. Onde palavras como: ganhar, destacar-se, buscar o êxito por todos os meios, expressam-se com muita força no esporte contemporâneo, com práticas que exprimem a superação de si, tornando-se assim um fato primordial da sociedade.

No filme que assisti e recomendo:  “Tudo por um Sonho”,  a prática esportiva está atrelada à paixão pelo esporte, ao prazer de estar no mar, de estar surfando. Sabemos que fatores sociais são determinantes para definir tendências comportamentais, portanto é relevante mencionar que a região geográfica onde se desenrola a história é em Santa Cruz, na Califórnia, local de ondas grandes, as chamadas “mavericks”, devido às formações rochosas características desta região litorânea, que já tem a cultura do surf como algo natural. Acontece na década de 80/90, quando o surf já estava se institucionalizando e normatizando como prática esportiva de competição e profissão. Isso significa dizer que já havia se tornado um nicho do mercado capitalista.

O filme “Chasing Mavericks” (Tudo por um Sonho) é baseado em uma história real, tem como cenário a região de Santa Cruz na Califórnia, ano de 1987. Relata a história do jovem surfista “Jay Moriariaty”, que desde pequeno desenvolveu o amor pelo mar e junto de sua amiga de infância e amor secreto “Kim”, adora ficar contando as ondas para ver a ondulação. Em uma de suas atividades de observação e contagem, cai no mar sendo salvo por “Frosty Hesson”, um experiente surfista da região. Seriam apenas coincidências?…A partir daí, tudo pode acontecer.

Nas palavras de Manfiolete et al., essa aproximação do homem ao ambiente natural, diz respeito a uma aproximação do indivíduo à suas origens, indo de encontro a tudo que vemos e sentimos, de forma a colaborar para um equilíbrio do homem em seu ambiente e redefinição das suas próprias capacidades reformulando muitas vezes conceitos e estilos de vida.

O relato desta história parece trazer uma identificação do sujeito com a prática esportiva, uma mescla de paixão, prazer, mas também uma fuga das contradições, tristezas e perdas tanto simbólicas quanto reais do cotidiano. Portanto o mar é um território de muitas emoções, boas e ruins, é ao mesmo tempo um cenário de prazer, medo, ansiedade e busca de um sentido para a vida e suas limitações. Em uma conversa entre Frosty e sua esposa, ela diz: – “Sei que o surf é sua paixão, sua vida e sua fuga. {…}.”

De acordo com o exposto acima, nas palavras de Brymer, apud Gomes e Riachos,  (2012),  esta relação que o homem estabelece com o meio, é como uma dança entre o homem e a natureza, onde ambos cooperam de forma harmoniosa, em ma espécie de fusão, com um único propósito, o da satisfação pessoal.

Jay Moriarity em conversa com Frosty Hesson, diz que quando ele fizer parte da crista da onda, terá a certeza de que está vivo. Trazendo a ideia desta fusão com o mar, este estado de simbiose, tornar-se um com a natureza, nela sentir-se inteiro, vivo, intenso:

Jay: – “No instante que eu chegar na crista dela e dropar, vou fazer parte dela e, neste  instante, vou ter certeza de que estou vivo.”

No filme, o menino Jay vive com sua mãe, sendo abandonado pelo pai ainda pequeno. Tem uma carta deixada pelo pai na ocasião, que Jay não lê, apenas guarda em sua caixinha especial, simbolicamente podemos dizer que essa “caixa” real, guarda seus medos, temores mais secretos e também seus maiores sonhos, que estão relacionados ao surf. Existe ai uma morte simbólica deste pai que desaparece, existe uma revolta e uma dor silenciosa, uma sensação de abandono, rejeição, ficou um ponto de interrogação. O mar, uma identificação. Está para além da paixão, trata-se de um espaço para dar vazão aos seus medos, suas dores, raiva e angústias e assim sentir-se vivo, pleno. Inclusive, no filme sempre que algo ruim acontece, despertando emoções negativas, tanto para Jay como para Frosty, eles vão para o mar, um lugar de fuga para suas tristezas e contradições.

Segundo a pesquisa realizada por Gomes e Riachos (2012), junto à praticantes de esportes de aventuras, o praticante tem a capacidade de experimentar um conjunto de sensações únicas impelindo-o para esse tal estado de afastamento, momentos de abstração total, alienando os seus praticantes do mundo que os rodeia. Fator que muitas vezes acaba por infligir alguma dependência naqueles que frequentemente realizam estas atividades.

Segundo Cantorani e Pilatti (2005), preza uma lenda de que o surf foi o precursor dos esportes de aventura, sendo praticado já em 900 d.c. Muitos anos depois, conhecido como “pai do surf”, Duke Paoa kahanamoku, que mnateve o surf verdadeiramente vivo graça a sua simples e pura persistência pelo esporte dos reis. Após uma vitória em Estocolmo ele introduziu o surf na América em 1913 e na Austrália em 1915, sendo, graças à sua posição de campeão olímpico, seus esforços floresceram, formando o embasamento para o surf da Era Moderna.

 Filme muito bom, indico.

           “Todos de nós viemos do mar, mas nem todos nós somos do mar. Aqueles de nós  que são os filhos das marés, devem retornar ao mar, muitas e muitas vezes, até o dia em que não voltarmos mais, deixando para trás apenas aquilo que tocamos ao longo do cminho .” “Aqueles que forçam seus limites descobrem que, às vezes, os limites dão o troco.”( Filme Tudo por um Sonho- CHASING MAVERICKS)

Referências:

CANTORANI, José Roberto H.; PILATTI, Luiz Alberto. O nicho “Esportes de Aventura”: um processo de civilização ou desciviliação? Revista Digital. Buenos Aires: Ano 10, N 87, agosto de 2005. http://www.efdeportes.com/

GOMES, Rui Adelino Machado; RIACHOS, Ricardo Miguel Raimundo. Práticas de Aventura: uma subcultura de risco? Revista Digital. Buenos Aires: Ano 17, N 173, outubro de 2012. http://www.efdeportes.com/

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo; tradução Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

MANFIOLETE, Leandro Dri et al. Atividades físicas de aventura na natureza: emoções, aventura, risco e imaginário. Revista Digital. Buenos Aires: Ano 17, N 168, maio de 2012. http://www.efdeportes.com/

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